quarta-feira, 28 de março de 2012

JO8111 - Aquele que nos defende



 Eu estava sem ar.
Foi pela manhã. Eu fui pega. Não tinha mais jeito. Todos me xingavam e me amaldiçoavam.
 Por que eu fiz aquilo? Por que foi que eu cedi? Estava tudo perdido...
Aquela gente me empurrava e me puxava pelos cabelos. Todos me odiavam. Diziam que o Efraim era um tolo por ter casado comigo. Que minha família não prestava. Os pais dele me odiavam. Sempre me odiaram. Mas o Efraim sempre cuidou de mim.
 Por que eu fiz aquilo com ele? Por que eu fui tão tola? Eu bem sabia o que me esperava. Sabia o meu destino, mas eles precisavam gritar aquilo o tempo todo? Eles me odiavam de verdade.
Eu estava sem ar de tão desesperada. Eu sabia que não havia solução. Eles me carregavam e eu sempre de cabeça baixa... sempre. Me batiam e eu tropeçava e caía machucando os joelhos; me sacudiam pra todos os lados. Então finalmente me jogaram no chão. Havíamos percorrido um longo caminho até aquele lugar. Acho que me fizeram circular por quase todas as ruas da cidade. A multidão havia se aumentado muito. Eu sabia porque, vi a quantidade de pés que se juntavam. Eu só via pés. Não ousava olhar pra cima. Estava com muito medo e vergonha. E o ar me faltava...não conseguia respirar direito.
Enquanto todos me xingavam, um homem gritou bem alto: “Então ‘Mestre’, essa mulher foi flagrada traindo o seu marido. É uma adúltera, está ouvindo? Foi pega no próprio ato. Na lei, Moisés nos mandou apedrejá-la. O que o senhor diz?”
Eu já tinha visto aquelas sandálias. Eu sabia quem era aquele homem. Ele falava das coisas de Deus. Só não tinha entendido porque me levaram até ele. Muito menos porque ele se inclinou e passou a escrever no chão, quando lhe fizeram aquela pergunta. Eu só sabia que ele era um mestre nas escrituras e que sempre debatia com os fariseus e os outros. Com certeza ele ia mandar me apedrejar. Ele conhecia as leis. Eu ia morrer. Não conseguia parar de chorar; o ar ficava cada vez mais pesado. Eu estava sufocando!
Todos gritavam: “Apedrejem ela. Matem a adúltera!” Mas ele permaneceu quieto. Escrevendo na terra.
Mas aqueles homens gritaram com ele e exigiram que ele falasse. Então vi, sem olha-lo nos olhos, que ele se endireitou. Aquela voz...não dá pra explicar, mas havia algo naquela voz que me fez estremecer mais do que  as daquela multidão. Era imponente, mas ao mesmo tempo doce.  Havia algo diferente.
O que ele falou naquela manhã, eu nunca me esquecerei. “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Ele voltou a se inclinar e escrever na terra.
Eu estava condenada. Morreria ali diante de todos envergonhada. E Efraim...pobre homem. Viveria humilhado.
Mas todos se calaram e, permaneceu assim, esse silêncio, por alguns minutos. Eu ainda estava lá. Esperando as pedras. Eu me tremia. E em pensamento, eu apenas pedia que Deus me perdoasse e cuidasse do Efraim.  Como fui tola em me deixar levar pelo momento. Mas a lei era justa. Eu tinha que admitir: Eu pequei!
Então eu ouvi aquela voz novamente. Ele me chamava.  “Mulher! Mulher!” Eu finalmente o olhei nos olhos. Senti que devia olhar. O meu corpo se tremia todo e já não pensava em mais nada. Apenas esperava as pedras. Ele me olhava fixamente e com ternura. Não era pena. Era ternura. Ele me perguntou: “Mulher, onde estão àqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?” Olhei ao meu redor e estávamos apenas aquele mestre e eu. Fiquei confusa por um instante. Eu não entendia. Porque não havia mais ninguém ali? Por que ninguém me jogou uma pedra sequer? Então eu entendi. E o ar voltou aos meus pulmões tão rapidamente que me prostrei. Eu estava viva! Eu estava viva!
Ajoelhada e chorando diante dele, eu o respondi: “Ninguém, Senhor”.

 Ele me disse: “Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais”.


Ele é aquele que nos defende.





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