Eu estava sem ar.
Foi pela manhã. Eu fui pega. Não tinha mais jeito. Todos me
xingavam e me amaldiçoavam.
Por que eu fiz
aquilo? Por que foi que eu cedi? Estava tudo perdido...
Aquela gente me empurrava e me puxava pelos cabelos. Todos
me odiavam. Diziam que o Efraim era um tolo por ter casado comigo. Que minha
família não prestava. Os pais dele me odiavam. Sempre me odiaram. Mas o Efraim
sempre cuidou de mim.
Por que eu fiz
aquilo com ele? Por que eu fui tão tola? Eu bem sabia o que me esperava. Sabia
o meu destino, mas eles precisavam gritar aquilo o tempo todo? Eles me odiavam
de verdade.
Eu estava sem ar de tão desesperada. Eu sabia que não havia
solução. Eles me carregavam e eu sempre de cabeça baixa... sempre. Me batiam e eu tropeçava e caía machucando os joelhos;
me sacudiam pra todos os lados. Então finalmente me jogaram no chão. Havíamos
percorrido um longo caminho até aquele lugar. Acho que me fizeram circular por
quase todas as ruas da cidade. A multidão havia se aumentado muito. Eu sabia
porque, vi a quantidade de pés que se juntavam. Eu só via pés. Não ousava olhar
pra cima. Estava com muito medo e vergonha. E o ar me faltava...não conseguia
respirar direito.
Enquanto todos me xingavam, um homem gritou bem alto:
“Então ‘Mestre’, essa mulher foi flagrada traindo o seu marido. É uma adúltera,
está ouvindo? Foi pega no próprio ato. Na lei, Moisés nos mandou apedrejá-la. O
que o senhor diz?”
Eu já tinha visto aquelas sandálias. Eu sabia quem era
aquele homem. Ele falava das coisas de Deus. Só não tinha entendido porque me
levaram até ele. Muito menos porque ele se inclinou e passou a escrever no chão,
quando lhe fizeram aquela pergunta. Eu só sabia que ele era um mestre nas
escrituras e que sempre debatia com os fariseus e os outros. Com certeza ele ia
mandar me apedrejar. Ele conhecia as leis. Eu ia morrer. Não conseguia parar de
chorar; o ar ficava cada vez mais pesado. Eu estava sufocando!
Todos gritavam: “Apedrejem ela. Matem a adúltera!” Mas ele
permaneceu quieto. Escrevendo na terra.
Mas aqueles homens gritaram com ele e exigiram que ele
falasse. Então vi, sem olha-lo nos olhos, que ele se endireitou. Aquela voz...não
dá pra explicar, mas havia algo naquela voz que me fez estremecer mais do que as daquela multidão. Era imponente, mas ao
mesmo tempo doce. Havia algo diferente.
O que ele falou naquela manhã, eu nunca me esquecerei.
“Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra
ela.” Ele voltou a se inclinar e escrever na terra.
Eu estava condenada. Morreria ali diante de todos
envergonhada. E Efraim...pobre homem. Viveria humilhado.
Mas todos se calaram e, permaneceu assim, esse silêncio,
por alguns minutos. Eu ainda estava lá. Esperando as pedras. Eu me tremia. E em
pensamento, eu apenas pedia que Deus me perdoasse e cuidasse do Efraim. Como fui tola em me deixar levar pelo momento.
Mas a lei era justa. Eu tinha que admitir: Eu pequei!
Então eu ouvi aquela voz novamente. Ele me
chamava. “Mulher! Mulher!” Eu finalmente
o olhei nos olhos. Senti que devia olhar. O meu corpo se tremia todo e já não
pensava em mais nada. Apenas esperava as pedras. Ele me olhava fixamente e com
ternura. Não era pena. Era ternura. Ele me perguntou: “Mulher, onde estão
àqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?” Olhei ao meu redor e estávamos
apenas aquele mestre e eu. Fiquei confusa por um instante. Eu não entendia.
Porque não havia mais ninguém ali? Por que ninguém me jogou uma pedra sequer?
Então eu entendi. E o ar voltou aos meus pulmões tão rapidamente que me
prostrei. Eu estava viva! Eu estava viva!
Ajoelhada e chorando diante dele, eu o
respondi: “Ninguém, Senhor”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário